Adamastores
da Abstração
Há três anos prometi a mim mesmo evitar o quanto eu podia o vestibular: passar por uma prova que avalia nossa capacidade cognitiva para ter a chance de estudar um objeto de interesse é um tanto traumático, sobretudo quando há a – grande – possibilidade de ser rejeitado. Neste ano, entretanto, o assunto está sendo tão comentado, que não pude cumprir a promessa: o maldito Adamastor invadiu meu facebook.
Para os desinformados, a prova de redação da UFRGS deste ano forneceu dados a respeito da língua portuguesa e citou, em um fragmento de texto, uma frase de um escritor moçambicano, que dizia “o mar foi ontem o que o idioma pode ser hoje; falta vencer alguns adamastores”. O fragmento continuava, explicando a metáfora do Adamastor, e em seguida veio a ordem para a dissertação: o vestibulando deveria ler três afirmações que, em suma, falavam que, percebendo o nosso idioma como “herança”, “memória” e “criação”, formamos uma identidade como Nação, podendo (esses três fatores) ser observados dentro de nós mesmos, nacionalmente e globalmente. A dissertação, portanto, deveria defender o porquê de algum desses fatores poder ser considerado um “Adamastor” para a língua.
O tema é difícil. Por que raios algum desses fatores pode ser considerado um obstáculo à língua portuguesa? Tomar a língua como herança, memória e criação é justamente o que faz dela uma língua fantástica e tão rica! Percebam a ironia: é da herança, da memória e da criação que nasceu Os Lusíadas. Além disso, são nesses três fatores que nosso tão aclamado romantismo se assentou. E o que é Macunaíma, senão herança, memória e criação? Ora, qual é o problema em observar esses fatores em diversos âmbitos? A banca se enganou de personagem! Ela não quis dizer que são adamastores e, sim, vascos-da-gama!
O que me surpreende, porém, é que a dificuldade não foi em discorrer sobre o tema, mas entender o que são os adamastores, apesar de, como já dito, a metáfora estar explicada no texto. É um problema que tenho observado há horas: a dificuldade na abstração. Em uma sociedade cada vez mais exata e regida por números, a metáfora tem se tornado matéria difícil de lidar. Reflexão é algo que não é privilegiado nas escolas: tudo o que temos de fazer é acumular algoritmos na cabeça: nosso sistema límbico, parte do cérebro responsável pelas emoções (e que dá nome a este blogue), está ficando atrofiado e pequenininho. Basta aparecer alguma novidade para que o pensamento fique impedido: o algoritmo não prevê adamastores – literalmente.
Lucas Primo

Pelo jeito que tu escreve até te consigo um a vaguinha nO Bisturi do Centenário…
Muito interessante. Nem precisarei ler o tema da redacao esse ano depois dessa aula de intepretacao…. Parabens seu blog esta impecavel com suas maravilhosas publicacoes! Beeeijo
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