Uma Quase-Certeza

Já faz alguns meses que venho estudando estatística de uma maneira um pouco mais sistemática que antigamente. O motivo, para meus colegas da medicina, é simples, mas para os outros talvez nem tanto: nenhuma hipótese dentro da área da saúde é considerada uma verdade científica caso não seja testada e re-testada com amostras e modelos estatísticos. Ou seja, se eu der um remédio para um paciente sem saber que ele tem um real efeito – matematicamente falando –, eu corro o risco de estar prescrevendo algo que é uma “inverdade científica”.
O que talvez assuste alguns estatísticos – mas principalmente os médicos – é o conceito dessa verdade científica dentro da saúde: só podemos dizer que algo tem efeito, caso eu faça um estudo em que há menos de 5% de chance de ele se dever ao acaso; por outro lado, só posso dizer que algo não tem efeito, caso eu faça um estudo em que há menos de 20% de chance de ele se dever ao acaso. Isso quer dizer que eu não tenho como ter certeza que aspirina é bom para dor de cabeça: eu só posso dizer que existe menos de 5% de chance de que a aspirina não seja bom para dor de cabeça. Pareceu chato? Mas nem é tanto.
A parte legal é todos os efeitos que esses números causam. Um deles é uma expressão que eu próprio usei diversas vezes dentro do curso de medicina: uma quase-certeza. Afinal, podemos ter quase certeza de algo? Ou temos certeza, ou não temos. Parece lógico, mas não é. Por exemplo, eu posso fazer um estudo que diga que a cura de tal antibiótico para uma população está entre 80 e 85%. Se a gente se lembrar que, para eu falar isso, meu estudo tem que ter menos de 5% de chance de se dever ao acaso, a maioria de nós diz a seguinte frase: “Eu tenho mais de 95% de certeza que a cura deste antibiótico está entre 80 e 85%”. Noventa e cinco por cento de certeza? Só dói no meu ouvido?
Até que não. Como eu disse, no meio da sistematização do meu estudo de estatística, deparei-me com a seguinte frase de um livro: intervalo de confiança não significa que temos 95% de chance de o valor real estar dentro dele; intervalo de confiança significa que 95% das amostras dessa população tem uma média dentro deste valor.
Ou seja, não faz sentido (pelo menos dentro da minha cabeça) ficar dizendo que temos 95% de certeza de que um valor está entre esse e este. Temos que dizer que 95% das vezes um valor vai estear entre esse e este. Não é mais elegante?
Lucas Primo
Publicado por Primo 