A Moça das Cores

A Moça das Cores


Assim como qualquer representante da minha geração – que, quando vê um filme dublado e escuta um introdutório “Versão Brasileira…”, o completa mentalmente, pensando “Hebert Richards” –, qualquer representante mais antigo (ou um jovem, porém antigo funcional, como eu), já prevê o nome de Natalie Kalmus ao ver um filme lá dos anos 30 ou 40. Ele geralmente vem inscrito no pôster da obra, abaixo do logotipo da Technicolor, ou – quando discriminado – nas primeiras palavras que aparecem nos créditos ao fim do filme. Não tem erro: Em “…E O Vento Levou” o nome dela está lá. Em “O Mágico de Oz”, também. E em “O Fantasma da Ópera”, em “As Aventuras de Tom Sawyer”, em “As Aventuras de Robin Hood”, em “Por Quem os Sinos Dobram”, em “À Noite Sonhamos” (filme-biografia de Chopin, vale a pena assistir!), e em mais de 300 filmes da mesma época. O pior de tudo é que as informações a seu respeito são parcas. Quase nada se fala sobre ela, ou pelo menos sobre quem ela realmente era.

A razão dessa lavagem cerebral da época pré-anos-dourados não era nenhuma censura tupiniquim varguista; na verdade era uma peça mal arranjada lá nas engrenagens hollywoodianas no que tangia o cinema a cores. Acontece que na década de 30 aprimorou-se definitivamente a tecnologia de colorização das produções cinematográficas: em vez de projetarem-se na tela dois filmes concomitantes – um em vermelho e outro em verde –, resultando em cores pobres e com pouco contraste, desenvolveu-se uma técnica chamada “tripack”, em que um espectro de três cores era misturado, formando cenas com cores vivas e brilhantes. Para isso, entretanto, alguns cuidados eram necessários: a luminosidade do estúdio deveria ser altíssima, para os filmes conseguirem captar a imagem; objetos diferentes e próximos deveriam ter cores diferentes para haver contraste e evitar uma fusão de corpos; protagonistas deveriam ter cores quentes, enquanto coadjuvantes deveriam ter cores frias, exigência da Technicolor para realce da cor. Todos esses cuidados, entretanto, não deveriam ser tomados pelo diretor ou produtor da película; eles eram cuidados por uma “produtora de cores”, uma profissão inventada pela Technicolor e que só tinha uma representante capaz de executá-la: a ex-mulher do presidente da empresa, a já mencionada Natalie Kalmus. Sendo assim, ao alugar os equipamentos da Technicolor, fazia parte do “pacote” a contratação compulsória de Natalie;  ou seja, ou ela trabalha, ou o filme fica em preto-e-branco.

O problema é que a Srta. Kalmus era uma chata, para não dizer coisa pior. Preocupada com detalhes fúteis – e muitas vezes tendenciosas pelo seu próprio gosto pessoal –, a moça não hesitava em dar pitacos em qualquer besteira do filme, enlouquecendo todos os diretores de Hollywood. Um deles chegou a dizer que “Se Walt Disney fosse também forçado a seguir suas diretrizes, os pálidos lábios róseos de Branca de Neve teriam mordido uma maçã verde como a espuma do mar”. O diretor Michael Curtiz estava querendo a horas cores muito brilhantes e vivas e, como a intrometida gostava de cores mais pálidas, ela o advertiu: “Seu filme ficará parecendo uma história em quadrinhos!”. Ele insistiu: “Mas é exatamente isso que eu quero!”. Já o diretor de “…E O Vento Levou” falou que “os especialistas da Technicolor parecem que adoram colocar qualquer tipo de obstáculo em detrimento da verdadeira beleza”, após uma clássica briga em que Natalie implicou com a cor “amora” do quarto da protagonista do filme, Scarlet O’Hara. Allen Dwan era mais taxativo: “Natalie Kalmus era uma vadia”.

Diziam as más línguas que a Technicolor só a contratava compulsivamente porque o presidente a queria o mais ocupada possível, para evitar incômodos na sua vida pessoal, após o divórcio com a musa da pentelhice, em 1922. Pode ter um fundo de verdade, pois, após a briga com Selznick – em que, graças à sua influência como diretor, conseguiu expulsá-la para a Inglaterra, durante das gravações de “…E O Vento Levou” – Natalie começou a perder espaço dentro da empresa, o que culminou em um processo aberto por ela em 1948 e na sua demissão no mesmo ano. Como não ganhara nem um tostão nos processos, começou a apelar nas audiências: “Eu não agüento mais! Meu Deus, meu Deus! Nenhuma corte me dará nem um pingo de justiça?!”. Uma grande saga. Não ganhou nada. Acabou a vida fazendo designs para televisões, não obtendo um décimo do sucesso que obtivera anteriormente.

Perdeu para a chatisse. Não só na vida, como na morte. Se sua memória permanece quase esquecida nos dias de hoje, é porque só a menção do seu nome causa arrepios em qualquer diretor de Los Angeles.

Lucas Primo

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