Doença, doença minha

Abril 15, 2011

Doença, doença

minha



É prática na grande maioria das faculdades de medicina do mundo que os alunos terceiranistas iniciem, finalmente, o convívio – e todos os outros sentimentos colaterais a esse convívio – com pacientes à beira do leito, perguntando-lhes a respeito de suas moléstias, aflições, medos, e tentando corrigir aquilo que possa trazer qualquer tipo de desconforto a eles. Na UFRGS não é diferente, com a exceção de que é no fim do segundo ano – e não no início do terceiro – que começamos a lidar com pacientes, através da disciplina de semiologia, em que o convívio é muito mais artificial.

Digo isso porque é somente no terceiro ano que os acompanhamos desde o início da internação até seu possível desfecho (que desejamos que seja a alta). É somente no terceiro ano que os estudantes conseguem ter uma mínima ponta de voz nas discussões de casos – ou rounds – para entender qual é a conduta a ser estabelecida e, quem sabe, até questioná-la. Pois bem, essa mudança abrupta que acontece na vida do acadêmico traz algumas conseqüências – pelo menos trouxe para mim –, que nos fazem perceber algumas sutilezas que muitos macacos-velhos não perceberiam.

Por exemplo, nos rounds, diários, há uma clara tendência de otimização de tempo em qualquer aspecto, o que deixa qualquer estudante confuso. Como passei agora no módulo de cardiologia, não raro ouvimos os residentes falarem frases como: “o paciente fez um eco, mostrou uma FE de 40%, vegetações na mitral, foi levado ao CAT, mostrou uma oclusão da DA e da CX de 70%, colocaram dois stents e já se iniciou terapia com genta e amoxi”. O que parece já ridículo para quem acabou de sair do módulo, torna-se extremamente complexo, para quem recém entrou, metabolizar, em 10 segundos de frase, que a FE nada mais é que a fração de ejeção mostrada no ecocardiograma; que a DA e a CX são as artérias coronárias descendente anterior esquerda e circunflexa esquerda, vistas no cateteterismo; que “genta” e “amoxi” nada mais são que os antibióticos gentamicina e amoxicilina utilizados para tratamento de endocardite, suspeitado através das vegetações da “eco”.

Não estou criticando os residentes: se é para otimizar tempo, que otimizemos na quantidade incessante de abreviaturas – que o professor entende – e não no atendimento com o paciente. A observação que eu faço é que os residentes têm tanta intimidade – esta é a palavra! – com as doenças, procedimentos e tratamento, que para eles é natural abreviá-las a seu bel prazer, pois todas as abreviaturas já fazem parte de sua rotina e seu vocabulário ativo. Seria a mesma coisa que uma pessoa fã do Paul McCartney fale “eu amo o Paul”, sendo que este poderia ser o Paul Gauguin, Jean-Paul Sartre ou até, se for uma pessoa de mau gosto, o Paul Rabbit! Mas para o fã do beatle é tão óbvio que estamos falando deste, que o vocabulário já está assimilado. O mesmo acontece com quase tudo na vida: acho que todos entendemos que, quando alguém fala que não gostava do Getúlio, a pessoa referia-se ao Getúlio Vargas; por outro lado, nenhum estudante de medicina estranhará que alguém fale que tem aula de “pato”, ao passo que os alunos da engenharia imediatamente pensarão num professor com um animal com penas no colo, com ele gritando “quack, quack” (enquanto na verdade queríamos ter dito que a aula era de patologia).

O que me surpreende de verdade, entretanto, é que não são só os residentes que se tornam íntimos dos termos técnicos. Hoje, ao entrevistar uma paciente portadora de diabetes tipo I (que, via de regra, é aquele que a pessoa tem uma deficiência de produção de insulina, normalmente diagnosticada na infância), ela relatou-me que teve uma crise de hipoglicemia (glicose baixa no sangue) durante a madrugada, e que precisou ser atendida de urgência. Ao perguntar se ela se sentira muito mal durante a crise, ela me disse: “Não, não… Eu não costumo ter sintomas de hipo… Há 10 anos que as hipo não me dão mais sintomas”.

Achei incrível.  Para a paciente, são tão freqüentes as complicações da sua doença que elas tornaram-se íntimas. Tenho certeza de que se fosse a primeira crise, ela falaria “Tive uma… como é que se chama? Hipoglicemia?”, talvez até errando a maneira de falar a palavra, dependendo do grau de sua instrução e sua capacidade em aceitar a doença. Mas não. É tão comum que a crise ganhou um “apelido”: hipo. Não hipotireoidismo, não hipocolesterolemia, mas hipoglicemia, sua cara. Sua companheira.

Antes que me xinguem, não estou fazendo ironias; principalmente, não estou criticando a paciente. Acontece que, assim como fala aquele texto ótimo (aqui cabe a ironia!), chamado “eu sei, mas não devia”, a gente se acostuma. Mas eu acho isso bom. Não consigo imaginar o grau de sofrimento da pobre paciente se não se acostumasse a lidar com seus problemas. Se não se acostumasse a ponto de tornar-se íntima e chamá-la pelo apelido. É difícil. Fico na dúvida, porém, se essa conformação deva ser incentivada, em detrimento da batalha pela cura. Talvez o que eu pense é que, a partir de hoje, meu objetivo agora será ajudar meus futuros pacientes a não chegar ao ponto de criar apelidos. Vai ser um dos critérios da escala Primo: “Chama a doença pelo apelido? 1 ponto: sim; 0 ponto: não”.

Lucas Primo



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