Garota Única

Garota Única


Desolado por ter passado dez dias em Santa Catarina e não ter conhecido nenhuma argentina (até por não fazer muita questão), entrei com meu mochilão e cacarecos no ônibus arrasta-arrasta de Capão Novo para Imbé e sentei ao lado de uma loira bronzeada. Ela estava olhando pela janela ouvindo música no celular. Música alta.

– Com licença ― disse eu, educadamente.

– Claro!

 

E então ela olhou pra mim com seus longos cabelos lisos esvoaçantes, olhos verdes e só então percebi o quão linda ela era. Escultural. Loira, magra, bronzeada, olhos verdes. Prestei atenção na música que ela estava ouvindo.

 

– Jack Johnson? ― arrisquei, com medo de dar uma super-mancada.

– Sim!!!!!! Tu gosta? Eu sou a-pai-xo-na-da!

– Olha, não é meu preferido, mas conheço um pouco para reconhecer essa música ―dei uma de entendido.

– Ah, não é teu preferido porque tu não conhece tanto então. Ele é o má-xi-mo. O que poderia ser melhor que Jack Johnson?

– Olha, eu gosto de Beatles. ―falei com uma inocência de criança.

– Rá-Rá-Rá. Meu pai gosta de Beatles. Ele foi no show de um deles agora em Porto Alegre.

– Ah, sim. O Paul McCartney. Eu também fui.

– Ah, mas então tu é fã mesmo.

– É, sou, sim ―e dei um sorrisinho amarelo.

 

Toca meu celular. Recebo uma mensagem. Ela espia meu celular. A mensagem está em francês. Eu não entendo ovo. Peço tradução para a remetente.

 

–  Tu fala francês? ―ela veio puxar assunto!

–  Não, não! Hahaha. Eu não entendi o que estava escrito!

–  Ah tá. É que sei lá, tu veio de mochilão, gosta de Beatles, fala francês, tava achando muito estranho.

–  Hahahaha. ―Dei uma risada de “não entendo por que tu achaste estranho”.

–  Era tua namorada? ― o interesse, sim, é que estava estranho!

– Era.

– Hmmmmm…

 

Cri-cri-cri. Recebo outra mensagem. Dou uma risada. Respondo.

 

– De onde ela é?

– Caxias, mas a gente se conheceu na faculdade.

– Ah, tu faz faculdade? De quê?

– Medicina. E tu?

– Uuh, que chique… Onde?

– Na UFRGS. E tu? ―insisti.

– Faço direito. Na PUCRS.

– Ah, legal.

 

Outra mensagem. Dou uma risada mais alta.

 

– Onde tu vai descer? – pergunto.

–  Em Capão, e tu?

– Só em Imbé.

– Ah tá. Ok, tenho que ir para a frente porque já vou descer.

– Hmmm… Olha só. Eu te menti uma coisa. ―arrisquei.

– Sério? O quê? ―ela me olha meio decepcionada.

– Minha colega da faculdade. Ela não é minha namorada. É só minha colega.

– Hmmmm…

Dei um beijo caloroso na garota e pedi o MSN. Disse que ia adicionar ela hoje à noite. Era uma guria única. Jamais encontraria outra igual. Chego em casa e invento um post para meu blogue.

Lucas Primo,

em uma história baseada parcialmente – bem parcialmente – em fatos reais.

 

P.S.: Como em menos de 5 minutos de postagem já me causaram confusão, seguem algumas explicações:

* Sim, a garota existiu;

* Sim, eu recebi a mensagem em francês;

* Não, apesar das coincidências, quem me mandou a mensagem não foi a Giovanna;

* Não, eu não tenho nada contra o direito da PUC. Ela realmente cursava esse curso nessa universidade;

* Não, ela não é uma garota única.


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