Movimentos
Masturbatórios
É corrente motivo de piadas, entre meus amigos , uma situação em que meu colega estava sentado, tremendo suas pernas em movimentos repetitivos, assistindo à aula de um polêmico professor, o qual o reprimiu, dizendo que seu aluno estava fazendo, segundo Freud, movimentos masturbatórios.
Difícil de aceitar? É verdade; eu também concordo que é.
Acontece que nós, futuros médicos, com uma cadeira voltada para o entendimento das fases da vida em nosso currículo, fomos treinados (ou pelo menos instruídos) a tentar entender o ser humano através do instrumento até hoje mais completo destinado a tal fim: a psicanálise. Em conseqüência disso, até podemos discordar do raciocínio de estudiosos que sabem mais do que nós, mas temos que, pelo menos, acompanhá-lo. E aí entra nosso caro Sigmund.
Ontem mesmo estava conversando com uma grande amiga minha, que faz psicologia, sobre a não compreensão de dogmas clássicos da psicanálise. O problema, na verdade, consiste somente no fato da não aceitação do conceito do erotismo proposto por Freud, pois a diferença entre o sexo-freud e sexo-carne é tênue como a diferença erotismo e pornografia: enquanto a pornografia busca a excitação através do extremo ousado, forte, impactante, sujo, o erotismo o faz através da insinuação do amor sexual; enquanto o ato sexual em si resulta de desejos físicos de reprodução da espécie – ou, atualmente, de busca de status social -, o sexo freudiano resulta de uma energia de vida a qual é necessária para a nossa sobrevivência e para a geração de impulsos que nos guiarão pela vida toda.
Por mais absurdo que isso possa parecer aos ouvidos de um leigo, o que quero dizer é que nós que somos os médicos de aqui alguns anos temos a formação para entender a vida como um resultado de desejos que são saciados e que ocorrem a todo o momento (ver post “O transtorno do Tripolar”), situação já descrita muito antes do pai da psicanálise por Shopenhauer. Freud foi mais além: afirmou que os desejos são todos (TODOS) sexuais.
Resumindo mais ainda, o que quero dizer é que temos de engolir essa história dos movimentos masturbatórios.
Mas será mesmo?
Se o leitor for como eu, perceberá que, se tomarmos à risca o fato de que nossos impulsos são de origem sexual, iremos notar que um tremor de pernas nada mais é do que um alívio de tensão sem a necessidade de um segundo ser, através de movimentos repetidos que cessam ou com o fim do estímulo tensional, ou com uma repressão do fato por outra pessoa (o clássico “te peguei com a boca na botija!”). Talvez assim, percebamos a masturbação mais evidentemente.
Entretanto, se o leitor for como algumas relutantes colegas minhas, achará que um tremor de pernas é apenas um vício adquirido para quando não estamos a fazer nada de mais significativo com os membros inferiores, ou então que é apenas um meio de alívio de tensão sem motivação sexual, afinal, como Freud mesmo disse, “às vezes um charuto é apenas um charuto”.
Sei lá, pra mim esse charuto tá mais pra cachimbo.
Lucas Primo, em agradecimento à Pamela Ami,
por algum suporte técnico, e à Laura Foresti por sempre
me ajudar a ir contra as colegas relutantes

Publicado por Primo 