Movimentos Masturbatórios

Setembro 13, 2010

Movimentos

Masturbatórios

 

É corrente motivo de piadas, entre meus amigos , uma situação em que meu colega estava sentado, tremendo suas pernas em movimentos repetitivos, assistindo à aula de um polêmico professor, o qual o reprimiu, dizendo que seu aluno estava fazendo, segundo Freud, movimentos masturbatórios.

Difícil de aceitar? É verdade; eu também concordo que é.

Acontece que nós, futuros médicos, com uma cadeira voltada para o entendimento das fases da vida em nosso currículo, fomos treinados (ou pelo menos instruídos) a tentar entender o ser humano através do instrumento até hoje mais completo destinado a tal fim: a psicanálise. Em conseqüência disso, até podemos discordar do raciocínio de estudiosos que sabem mais do que nós, mas temos que, pelo menos, acompanhá-lo. E aí entra nosso caro Sigmund.

Ontem mesmo estava conversando com uma grande amiga minha, que faz psicologia, sobre a não compreensão de dogmas clássicos da psicanálise. O problema, na verdade, consiste somente no fato da não aceitação do conceito do erotismo proposto por Freud, pois a diferença entre o sexo-freud e sexo-carne é tênue como a diferença erotismo e pornografia: enquanto a pornografia busca a excitação através do extremo ousado, forte, impactante, sujo, o erotismo o faz através da insinuação do amor sexual; enquanto o ato sexual em si resulta de desejos físicos de reprodução da espécie – ou, atualmente, de busca de status social -, o sexo freudiano resulta de uma energia de vida a qual é necessária para a nossa sobrevivência e para a geração de impulsos que nos guiarão pela vida toda.

Por mais absurdo que isso possa parecer aos ouvidos de um leigo, o que quero dizer é que nós que somos os médicos de aqui alguns anos temos a formação para entender a vida como um resultado de desejos que são saciados e que ocorrem a todo o momento (ver post “O transtorno do Tripolar”), situação já descrita muito antes do pai da psicanálise por Shopenhauer. Freud foi mais além: afirmou que os desejos são todos (TODOS) sexuais.

Resumindo mais ainda, o que quero dizer é que temos de engolir essa história dos movimentos masturbatórios.

Mas será mesmo?

Se o leitor for como eu, perceberá que, se tomarmos à risca o fato de que nossos impulsos são de origem sexual, iremos notar que um tremor de pernas nada mais é do que um alívio de tensão sem a necessidade de um segundo ser, através de movimentos repetidos que cessam ou com o fim do estímulo tensional, ou com uma repressão do fato por outra pessoa (o clássico “te peguei com a boca na botija!”). Talvez assim, percebamos a masturbação mais evidentemente.

Entretanto, se o leitor for como algumas relutantes colegas minhas, achará que um tremor de pernas é apenas um vício adquirido para quando não estamos a fazer nada de mais significativo com os membros inferiores, ou então que é apenas um meio de alívio de tensão sem motivação sexual, afinal, como Freud mesmo disse, “às vezes um charuto é apenas um charuto”.

Sei lá, pra mim esse charuto tá mais pra cachimbo.

Lucas Primo, em agradecimento à Pamela Ami,

por algum suporte técnico, e à Laura Foresti por sempre

me ajudar a ir contra as colegas relutantes


Histeria!

Setembro 5, 2010

Histeria!

Ao escrever um relatório de entrevista médica para a faculdade há umas duas semanas, surgiu uma dúvida: eu não estava conseguindo lembrar-me do termo médico usado para referir-se à remoção completa do útero de uma mulher. Em associação a outras cirurgias como remoção da próstata (prostatectomia), remoção do fígado (hepatectomia) ou remoção de um rim (nefrectomia), não estava achando um vocábulo equivalente para órgão feminino, já que uterectomia não me soava bem aos ouvidos. Perguntei à minha colega se ela sabia a informação que eu não tinha, e ela respondeu: histerectomia. Na ocasião não dei muita bola para isso; apenas escrevi o termo no meu trabalho e pensei que deveria ter prestado mais atenção nas aulas de Promoção e Proteção da Saúde da Mulher.

Entretanto, ontem, em uma janta entre amigos, enquanto uma amiga minha estava atazanando a todos com gritos sem motivos, falei sem um pingo de maldade: “Fulana, tu estás histérica”. Meu colega complementou, com uma certa dose de veneno: “Primo, ela é histérica, como toda a mulher”. Nesse momento meu mundo caiu. Como minha ficha não havia caído antes quando o problema estava em frente aos meus olhos? Há um motivo óbvio para a remoção do útero ser chamada de histerectomia: histeria era o nome dado na era pré-Freud às crises convulsivas e às crises maníacas que aconteciam, não em qualquer pessoa, mas apenas nas mulheres. Por razões preconceituosas da época, não se achava que homens poderiam ter crises de histeria, o que levou os estudiosos achar que essa crise era oriunda do maior símbolo feminino: o útero. Desse modo, mulheres histéricas eram curadas com a remoção desse órgão, procedimento o qual levou o nome óbvio de “histerectomia”.

Quem acabou com essa visão distorcida de que homens não podem sofrer de histeria foi o Freud, nosso pai da psicanálise. Foi ele quem percebeu que o sexo masculino tem angústias internas tão grandes quanto o sexo feminino, o que faz com que sejamos todos suscetíveis a representá-las de uma maneira exacerbada, resultando em um quadro meio psicótico. Freud provou esse conceito ao mundo (ou ao menos parte dele) quando descreveu minuciosamente o nosso grande formador do superego: o Complexo de Édipo. Se esse complexo (aquele resultante da aproximação do filho pelo cuidador do sexo oposto na infância) tornar-se defeituoso em algum momento, é provável que haja falhas no superego (instituição psíquica responsável pela repressão dos impulsos) resultando em histeria. Como homens também passam pela fase do Complexo de Édipo, é possível que eles também sejam histéricos.

O engraçado é que Freud provou a si mesmo com seu próprio exemplo: ele mesmo julgava ter seu complexo de Édipo mal resolvido por ter sido sempre o favorecido pela sua mãe entre os seus irmãos, fato o qual o levou a falar, em um lapso de modéstia, que “as pessoas que sabem que são preferidas ou favorecidas pela sua mãe dão provas na vida de uma particular confiança em si mesmas, de um inabalável otimismo que não raras vezes parecem heróicos e levam a um êxito real”. Histérico? Talvez não tanto quanto Picasso, que falou: “Minha mãe dizia: Se queres ser um soldado, serás general; se queres ser um monge, acabarás sendo Papa. Eu quis ser pintor e tornei-me… Picasso”. Esse sim, histérico. E ambos homens. Sem direito a histerectomia.

Lucas Primo


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