Uma tal de Susan Boyle

Dezembro 6, 2009

Uma tal de

Susan Boyle

Aparentemente eu era um dos poucos a não dar muita bola para um fenômeno surgido na Inglaterra nesses últimos meses, embora, por mais que muitos pensem, não tenha sido por preconceito: eu realmente estava curioso para me inteirar sobre a gordinha feiosa que, pelo que estavam me informando, devia ser a revelação do século. Para os desinformados, Susan é uma cantora surgida no “Britain’s Got a Talent”, uma espécie de “American Idol” da terra de Shakespeare.

Resolvido a pesquisar sobre “Susie Simple” (apelido dado à cantora, vítima de bullying, nos tempos de colégio), comecei a ficar preocupado. Não vi um sequer site de críticas, e comecei a achar que essa badalação toda era uma manipulação do estilo Big Brother Brasil, principalmente quando vi no Youtube o vídeo de quando ela apareceu para cantar pela primeira vez no programa mencionado. A seqüência da cena era a seguinte: entra no palco uma pessoa feia, com os cabelos estilo espantalho-mágico-de-Oz, e os jurados começam a entrevistá-la. Susan faz gracinhas no palco, e, entre as gracinhas, flashes da platéia aparecem com os rostos das pessoas fazendo cara de reprovação, de deboche daquela feiúra ambulante. Um jurado pergunta a idade dela, que se segue da resposta (“forty-seven”). Outro flash: uma garota ri da resposta. No entando, quando Susan resolve cantar, todos fazem cara de surpresa e de admiração.

Para mim era evidente: ou a platéia estava sendo influenciada, ou a rede de televisão sabia do potencial da cantora e fez a mídia toda em cima da aparência da intérprete.

Só foi ficar evidente, porém, para mim que realmente se travata de jogada de marketing para cima de Susan, quando fui informado de que ela já teria fechado parcerias com a Sony Music e com o magnífico brega Andrew Lloyd Webber (aquele musiquinho do “Fantasma da Ópera” e do “Amigos para Sempre”). Dizem, também, que ela enviou, “confidencialmente”, para amigos, uma versão de Killing Me Softly, a qual parou no Youtube e já tem mais de 50 milhões de acessos.

A receita para o sucesso estava formada: músicas bregas e de apelo popular, cantadas por uma pessoa feia (para chamar a atenção), mas que tem uma voz forte e retumbante. Só faltava o local de divulgação. Aí entrou o “Britain’s Got a Talent”.

O problema de tudo (!) é que a filha-da-mãe canta bem. O potencial vocal dela é imensurável. Susan Boyle não erra, não desafina, canta com sentimento, por mais que suas músicas sejam ruins. Susan Boyle, a exemplo de Edith Piaf, sabe usar suas mãos: expõe com elas a sua paixão pela música e por sua voz. Susan Boyle é o exemplo de que todos precisávamos para frear essa rapidez com a qual julgamos as pessoas.

Entretanto, infelizmente a mídia não está ajudando. Está criando mais uma artista de fama repentina e curta. A crítica especializada não vai aceitar uma cantora que canta musicais da Broadway: ela quer música de verdade em uma musicista de verdade. A musicista já temos, mas faltam as músicas. Acredito que tentaram consertar um pouco esse problema com a música dos Rolling Stones, mas, na sua essência, suas canções são bregas. O problema é que os grandões da música já não costumam elogiar musicistas com músicas ruins.

Lucas Primo


A Pílula da Ignorância II – O Retorno do Prozac

Dezembro 3, 2009

A Pílula da

Ignorância II –

O Retorno do

Prozac

Aproveitando os comentários muito produtivos dos amigos do post abaixo, volto com o mesmo tema para fazer um apelo.

Hoje eu estava voltando para casa no famigerado T-Six e fiquei com os ouvidos atentos em uma conversa que estava acontecendo entre dois estudantes (espero) a dois bancos atrás do meu. Pelo que pude perceber, tratava-se de um casal de namorados que estava “revisando” a matéria, talvez para o vestibular – coitados! –, retomando tópicos de português. O menino parecia liderar a revisão:

- Vou te falar uma frase: “A calculadora fez o cálculo errado.” O que “o cálculo” é na frase?

- Objeto direto! – respondeu a menina corajosamente.

- Errou! Não existe objeto direto de predicado nominal.

- Ah! É mesmo! Então é…

- Predicativo do Sujeito – quase gritaram os dois no ônibus.

Eu ri. Que loucura. Partindo do princípio de que “o cálculo” realmente é o objeto direto, não entendo como duas mentes sãs – ? – chegam à mesma estúpida conclusão – ! –, por causa de uma explicação muito suspeita –!!! –. O barco continuou:

- Na frase “Há dois cachorros bebendo água”, quem é o sujeito?

- Sujeito oculto! – percebi que a menina não sabia nada mesmo.

- Isso mesmo, mas por quê?

- Aah, não sei!

- Porque o verbo houver com sentido de existir é sujeito oculto.

- Não, não! É oração sem sujeito – replicou a menina, para meu alívio

- É oculto.

- Sem sujeito!

- Oculto, oculto, oculto! – Esperneou o garoto.

- Tá. Tá bem então.

Show de horror. Mas o barco não afundou:

- Olha essa música, eu adoro ela: “quando ela me vê ela mexe! Piri-pipiripi-piripiri-periguete!”

É óbvio que lembrei do depoimento brilhante que li há algum tempo (mencionado no primeiro post). “Quiçá o levaria ao baile funk”. Saí do ônibus refletindo: lá se vão dois pombinhos felizes e saltitantes. Mas dementes. Muito dementes.

Pelo amor de Deus, eis meu apelo: não formulem teorias se tiverem tomado sua fluoxetina antes!

Lucas Primo


A Pílula da Ignorância

Novembro 27, 2009

A Pílula da

Ignorância

Viajando, ontem, por esse vasto mundo chamado Orkut, deparei-me com um depoimento brilhante escrito para um sujeito não menos brilhante, que, aliás, ainda me deve um post neste blog com um de seus interessantíssimos poemas e contos. Segue o depoimento:

Eu acredito que 20mg de fluoxetina acabariam com a solidão e o talento poético deste rapaz. Quiçá, o levariam ao baile funk.

De fato, não só o pensamento expresso pelo autor é verdade, como explica o grande mal que afeta a sociedade contemporânea: a ignorância, já que a fluoxetina, para quem – ainda – não sabe, é uma droga que age em alguns neurônios específicos, fazendo com que uma substância liberada por eles (a serotonina) fique impedida de ser reabsorvida para a célula, o que a transforma em um medicamento com forte tendência antidepressiva. Infelizmente (ou felizmente), os estudos em cima desse remédio só começaram a ser feitos a partir da década de 70, nos Estados Unidos. Explico.

O problema dessa história toda é que justamente começaram a tratar os depressivos, indiscriminadamente, e inclusive os que não têm depressão. E aos poucos eu vejo cada vez mais as pessoas menos sozinhas, desprovidas sequer de um pensamento poético e – o pior de tudo – freqüentando cada vez mais esses bailes funks, pois a depressão maior é uma doença, que, por mais que esteja cada vez mais sendo estudada, está cada vez menos sendo pensada: cada vez menos o conceito de tristeza está sendo posto em xeque para ver se é um sentimento bom ou ruim. No entanto, se parássemos para filosofar em cima da tristeza, possivelmente chegaríamos a um ponto em que perceberíamos que o sucesso não é só ser feliz e o insucesso não é ser infeliz. A infelicidade é natural e é completamente necessária a qualquer ser humano – e principalmente àqueles que se utilizam desse sentimento para produzir seus brilhantes feitos para a humanidade: e aí se incluem poetas, filósofos, cineastas, romancistas, artistas plásticos.

Talvez o não entendimento desse conceito da tristeza tenha nascido no fato de que a maioria dessa elite intelectual depressiva se agarre na idéia de que ninguém deve ser como eles porque são fracassados como seres humanos e têm uma vida miserável. Mas qual o problema em ser miserável? Não conheço um só filósofo que tenha abdicado de sua genialidade para ser mais feliz. Aliás, normalmente quanto mais depressivo um sujeito é, na busca de ser menos infeliz, mais o sujeito estuda e se dedica à sua arte, o que, paradoxalmente acaba causando mais depressão, confirmando a equação criada pela Lisa Simpson que distancia o conhecimento da felicidade. Desconfio de que esse é um indício de que possivelmente o sucesso não é ser feliz: é não ser ignorante.

Mas por que as pessoas insistem tanto nesse chavão de que o sucesso é ser feliz? Formulem suas teorias, mas acredito eu que é porque essa é uma tarefa infinitamente mais fácil do que não ser ignorante.

Lucas Primo


O toque

Novembro 10, 2009

O Toque

Image

Hoje ao meio-dia tive um seminário com um psiquiatra simplesmente genial da bioquímica que está estudando escalas de personalidade e coisas afins; um dos ápices do seminário, no entanto, foi uma discussão sobre um dos sentimentos mais primitivos e mais mal-entendidos do ser humano, tanto que este é o principal assunto lidado por artistas, por exemplo: o amor. O mais surpreendente de tudo foi a conclusão a que ele chegou, a qual faz todo o sentido, embora eu jamais tivesse imaginado, em toda a minha vida, que ouviria isso da boca de um especialista da mente humana, alguém que sabe do que está falando. Segundo ele, o amor é facilmente mensurável.

O que nos faz ter mais ou menos do sentimento de Eros por alguém, por incrível que pareça, é um medidor bastante simples: o contato. Quanto maior o contato com alguém, maior o amor. E é incrível como isso está presente na nossa vida, em todos os níveis do amor, desde o fraternal ao sexual. Para entender isso basta prestar atenção no nosso cotidiano e ver que só andamos de mãos dadas com nossos pais. É o símbolo da afeição, é o que nos torna mais próximos uns dos outros, é o que nos une. E talvez por isso, tendo uma abordagem muito psicanalítica, agora, é que uma dificuldade em demonstração de afeto por parte dos pais possa trazer complicações para relacionamentos interpessoais dos filhos: os últimos simplesmente não sabem amar: não sabem fazer do toque um instrumento a seu favor.

Essa visão do toque é tão real que não é à toa que sofremos muito quando estamos desenvolvendo uma compaixão por alguém e não podemos tocar nesse alguém, dar a mão, dar um beijo, dar um abraço. Precisamos do contato. E a falta dele demonstra que algo não está bem, como em uma briga, por exemplo, quando até o contato visual fica prejudicado. Ou quando não queremos mais amar alguém, momento o qual nos forçamos a não falar mais com a pessoa: parece que, assim, deixamos de amar.

Reclama-se muito de que as pessoas não se tocam mais, não se abraçam, não se beijam. É verdade: mas isso é só o resultado. O que carece no mundo é de amor, pois não temos mais amor intrínseco, amor incondicional, amor sem razão de ter. As pessoas estão distantes, sem toque, sem abraço. É problema de saúde pública. Tenho um professor que no aniversário de uma colega só desejou amor para ela, e perguntou se havia algo tão importante quanto. Outro colega falou “saúde”, mas não: quem tem amor não adoece. É isso o que nos falta: amor.

Lucas Primo


Eu já sabia!

Outubro 27, 2009

Eu já sabia!

Bao_Xishun_antigo_recordista

Que mais tenho eu a dizer? Nada, além de “eu já sabia!”. Saiu na revista Science deste último mês um artigo de apenas uma página explicando algumas obviedades. Era de apenas uma página, mas era na Science.

Uma equipe de cientistas americanos (tinha de ser!) resolveu pesquisar o porquê de a população mundial estar, ao longo das décadas, cada vez com uma altura média maior. Qual seria o motivo lógico para esse crescimento tão rápido (em altura, não em número) que tem acontecido na humanidade?

Preciso confessar que achei uma pesquisa completamente inútil, quando fiquei sabendo dela pela primeira vez; entretanto, resolvi ler o artigo para entender melhor o que estava se passando. Aqui vai ela de brinde:

Resolveram fazer questionários com um enorme número de indivíduos, que, além da altura, informaram outras informações que pareciam ser relevantes. Por falar em relevante, o único dado encontrado que havia relevância estatística no artigo foi uma relação direta entre altura e número de filhos. Ou seja, aparentemente os mais altos têm mais filhos.

E qual é a conclusão? É simples! Darwin explica novamente: seleção natural! As mulheres preferem os mais altos, o que leva a eles terem mais filhos que os baixinhos, causando, por conseguinte, um aumento na altura média da população.

Que mais tenho eu a dizer? Nada, além de “eu já sabia!”, hahaha.

Lucas Primo


Era uma vez, um restaurante francês…

Outubro 26, 2009

Era uma vez,um

restaurante francês

La Casserole

Diz um colega nosso que estava passando uma temporada em Paris e que resolveu entrar em um restaurante com a assinatura Alain Ducasse estampada na frente, com a esperança de pudesse comer bem depois de dias a fio sobrevivendo de lanches McDonald’s e de plat du jour em brasseries que encontrava pelo caminho. Pois aquele restaurante em particular lhe parecia ser bom, com ambiente agradável e aconchegante, cercado de pessoas bonitas na volta.

Daí, parece que ele entrou, foi acompanhado pelo maître até uma mesa e sentou, quando em seguida chegaram os garçons com o tradicional couvert oferecendo um magnífico vinho, o qual ele só provou; pediu, então, um refrigerante. Chegado o cardápio, restava decidir o que comer; no entanto, percebeu que só o couvert e o refrigerante já haviam passado do dinheiro que ele dispunha para pagar, fato que o levou a começar a suar frio, a dar taquicardia: “meu deus, o que faço agora?”; “vou manchar o nome do meu país”; “vou ter de lavar pratos”; “meu deus, o que faço agora?”.

Diz ele que não conseguia mais pensar, que o pãozinho já estava voltando do estômago, que só pensava naquela situação que não tinha como sair, que ia manchar o nome do país, que ia passar pela situação mais constrangedora da vida dele.

O último relato é que, segundo ele, baixou uma inspiração de sabe-se lá onde na hora do desespero, e a única atitude que tomou foi a de fechar o cardápio e ir andando calmamente em direção à saída. Vieram os garçons como uma tropa enfileirada atrás do maître gritando: “Êpa, êpa, peraí, não vai pagar, não senhor?” (Imaginem franceses falando isso). A única resposta foi clássica: “No, no! Muy caro! Em Argentina eso no acontece!”.

Lucas Primo


Dá-se aulas de sintaxe.

Outubro 17, 2009

Dá-se aulas de

sintaxe.

quadrinho

Em meados de setembro caiu o mundo. Situação: reunião da coordenação política do governo. Diz Tarso Genro: “Mas [fulano de tal] interviu naquela situação.”! Não bastasse o erro de morfologia, veio o Lula: “Tarso, é interveio.”. Caras estupefatas. Lula cospe em cima: “Muita gente pensa que é interviu, mas é interveio.”.

Vamos lá, pessoal, lição de gramática: verbo ver no passado: eu vi, tu viste, ele viu. Verbo vir no passado: eu vim, tu vieste, ele veio. O verbo é intervir (derivado do vir), logo o correto é interveio mesmo.

Que horror.

Mas pensando em gramática, eu e um amigo estávamos pretendendo arrecadar um dinheiro dando aulas de gramática. Sintaxe, para ser mais preciso. Afinal, é tão fácil. Sintaxe se resume a um princípio: ache o sujeito, o verbo e o complemento de uma oração e bingo(!), tudo gira em torno disso. É tão simples.

Por exemplo, eses dias minha amiga me corrigiu: eu falei “para mim te amar é fácil”. “É para eu te amar, Lucas. Mim não conjuga verbo”. Mas não tá conjugando, pôo… Mim não é o sujeito, tanto que tem um “para” na frente (sujeitos não começam com preposição). Tá, se eu estiver falando grego, deixa eu colocar a frase na ordem: Te amar é fácil para mim. Ficou mais claro né?

Resolvemos então dar aulas de sintaxe. Vou criar uma placa bem grande: “DÁ-SE AULAS DE SINTAXE!”. Perfeito.

Então… Erros não são abomináveis. Eu erro português, o Moreno erra português (será?), o Bechara erra português (o VOLP tá aí para confirmar!). Então, que mal tem em eu e meu amigo darmos aula de sintaxe? Só por causa da placa? Será que erraríamos muito?

Pouco importa, o Lula corrigiu o Tarso.

Lucas Primo


Ovelha Preta

Outubro 13, 2009

Ovelha Preta

Uma, no meio, se destaca...

Uma, no meio, se destaca...

Perdoe-me Camões, perdoe-me Neruda, perdoe-me Eliot, perdoe-me Shakespeare, mas o posto de poeta maior só cabe a Fernando Pessoa. Talvez eu fale isso devido à minha preferência inata pela língua portuguesa, mas ele é o poeta.

A começar por um dos primeiros artigos escrito por ele, com sua impetuosidade modernista, na revista portuguesa “A Águia”, em que ele diz o seguinte: “[...]E isto leva a crer que deve estar para muito breve o aparecimento do poeta ou poetas supremos, desta corrente, e da nossa terra, porque fatalmente o Grande Poeta, que este movimento gerará, deslocará para segundo plano a figura, até agora primacial, de Camões”

Conclui-se: Pessoa previu o seu sucesso; disse que seria o “supra-Camões”; afirmou que, a partir daquele momento, a literatura portuguesa estaria dividida entre antes e depois de Camões e antes e depois dele mesmo; mostrou ser a ovelha negra: aquela que se destaca na multidão de ovelhas, aquela que no meio de tanta igualdade se destoa, chama a atenção. No entanto, qualquer débil mental poderia falar isso – ainda mais no auge do modernismo -, porém, lido por nós, atualmente, esse artigo se torna genial, porque, de fato, Pessoa se tornou a ovelha negra.

Por conseguinte, está para surgir a ovelha negra do sul – direto para o norte. Ela não é mais negra, é preta, e não escreve; toca. Basta dessa gauchada tocando reggae; basta de amadorismo. Agora o negócio é sério.

O problema é não se tornar genial.

Lucas Primo


Instruções para descascar laranjas no R.U.

Setembro 16, 2009

Instruções para

descascar laranjas

no R.U.

Seguindo a linha do Cortázar (mencionado no post anterior), fiquei imaginando a antítese cortaziana: um cronópio dando instruções para nós humanos:

“Ninguém deixará de notar que, muitas vezes, nos deparamos com situações nas quais temos de executar determinadas ações sem os devidos instrumentos necessários, como é o caso do descasque de frutas cítricas alaranjadas sem seu principal instrumento de corte – aquilo que vocês humanos chamam de faca – em locais onde não são adequadas atitudes como lambuzar-se todo com o caldo da fruta, ou fazer ferimentos indesejados com a navalha mencionada, a qual geralmente não tem fio o suficiente para cortar pseudocarpos, todavia tem fio o suficiente para arrancar parte da unha, ou talvez do dedo. Para realizar tal façanha (a de atingir o objetivo: comer a fruta sem lábios sujos e dedos retalhados) pode-se partir de dois métodos diferentes:

O primeiro é muito interessante, e é realizado a partir de um corte longitudinal do ápice da laranja - que, como vocês simplificaram, chamaram de “pólo” – até a extremidade inferior da mesma – que para dificultar tem o mesmo nome que o ápice: “pólo”. Felizmente, nesse caso não interessa se começares o corte pelo pólo ou pelo pólo: o resultado será exatamente o mesmo. Após isso, urge fazer um segundo corte – também passando pelos pólos -, porém de forma transversal ao primeiro, resultando em quatro “gomos” distintos. Para finalizar, basta realizar um pequeno corte na ponta de cada gomo e separar a casca da polpa da fruta, o que pode ser feito com as mãos ou com os próprios dentes, resultando em um perfeito descasque sem perda de partes nutritivas.

O segundo método, muito mais engenhoso, porém muito mais divertido, consiste em utilizar-se da faca para realizar um corte equatorial na laranja – de forma que fique em uma mesma distância exata do pólo e do pólo - e, em seguida fazer jus a um instrumento pouco valorizado na maioria dos restaurantes universitários: o cabo com ponta côncava (ou colher). Segura-se o cabo com uma mão e a laranja com a outra e enfia-se a parte côncava a partir do corte feito na fruta, de modo que a concavidade cubra a polpa e separe a mesma da casca.  Ao fazer esse movimento repedidas vezes em diferentes partes do alimento, basta arrancar a casca com um breve puxão, lembrando a retirada de um capacete por um motociclista, e ter-se-há a polpa completa para se comer e absorver vitaminas do tipo C.”


O Jogo da Amarelinha

Agosto 29, 2009

O Jogo da

Amarelinha

amarelinha

 Semestre passado eu estava vendo meus e-mails, e um colega da faculdade mandou um e-mail para nossa turma com um link para download de um atlas de anatomia, que estava em espanhol. Concluiu seu e-mail assim: “Para quem quer estudar anatomia e aprender a língua do Cortázar ao mesmo tempo, eis uma ótima opção”.

Julio Cortázar, para quem não conhece, é um famoso escritor argentino, ao lado de Borges, porém muito melhor, na minha opinião. Meu primeiro contato com o Cortázar foi no primeiro ano, quando meu professor de literatura levou um dos contos dele, intitulado “Instruções para subir uma escada”, do qual eu me matava de rir linha após linha, principalmente em partes como a que ele adverte que “deve-se ter um cuidado especial em não levantar ao mesmo tempo o pé e o pé”, referindo-se ao esquerdo e ao direito, obviamente. Após isso, resolvi ler dois livros de contos desse magnífico autor, “Histórias de Cronópios e de Famas”, do qual faz parte o referido conto, e que fala sobre seres nada convencioniais que têm suas características próprias, bem diferente das dos humanos, e “Todos os Fogos: O Fogo”, outro livro de contos aleatórios. Ambos são ótimos, temos a obrigação de lê-los pelo menos uma vez na vida – sobretudo o primeiro.

Não fazia parte da minha coleção, no entanto, a obra prima do autor, o conhecidíssimo desconhecido romance “O Jogo da Amarelinha”. Este livro é um romance fragmentado – demais – que tem uma singela característica: não tem início, nem meio, nem fim: começa-se ele por onde quiser; termina-se ele por onde quiser. Entretanto, o autor sugere duas ordens de leitura (sim, acreditem): uma fazendo uma leitura progressiva, começando pela página 1, e terminando no no meio, e outra começando no meio e pulando capítulos. Deixemos o próprio autor explicar seu livro, em seu prefácio:

“À sua maneira, este livro é muitos livros, mas é, sobretudo, dois livros. O leitor fica convidado a escolher uma das seguintes possibilidades:

O primeiro livro deixa-se ler na forma corrente e termina no capítulo 56, ao término do qual aparecem três vistosas estrelinhas (***) que equivalem à palavra Fim. Assim, o leitor prescindirá sem remorsos do que virá depois.

O segundo livro deixa-se ler começando pelo capítulo 73 e continua, depois, de acordo com a ordem indicada no final de cada capítulo. Em caso de confusão ou esquecimento, será suficiente consultar a seguinte lista:

73 – 1 – 2 – 116 – 3 – 84 – 4 [...]

Com a finalidade de facilitar a rápida identificação dos capítulos, a numeração é repetida no pé das páginas correspondentes a cada uma delas.

E, animado pela esperança de ser particularmente útil à juventude e de contribuir para a reforma dos costumes em geral, formei a presente coleção de máximas, conselhos e preceitos, que são a base daquela moral universal tão adequada à felicidade espiritual e temporal de todos os homens de qualquer idade, estado e condição que sejam, e à prosperidade e boa ordem, não só da república civil e cristã em que vivemos, mas também de qualquer outra república ou governo que os filósofos mais especulativos e profundos do orbe queiram discorrer.”

Pois bem, prometi ao meu colega que o leria nas férias, mas foi mentira: terminei de ler agora a pouco. Como ele mesmo disse que aconteceu com ele, terminei o livro pensandoo: “e agora? o que faço da minha vida?”.

Lucas Primo