Uma tal de
Susan Boyle

Aparentemente eu era um dos poucos a não dar muita bola para um fenômeno surgido na Inglaterra nesses últimos meses, embora, por mais que muitos pensem, não tenha sido por preconceito: eu realmente estava curioso para me inteirar sobre a gordinha feiosa que, pelo que estavam me informando, devia ser a revelação do século. Para os desinformados, Susan é uma cantora surgida no “Britain’s Got a Talent”, uma espécie de “American Idol” da terra de Shakespeare.
Resolvido a pesquisar sobre “Susie Simple” (apelido dado à cantora, vítima de bullying, nos tempos de colégio), comecei a ficar preocupado. Não vi um sequer site de críticas, e comecei a achar que essa badalação toda era uma manipulação do estilo Big Brother Brasil, principalmente quando vi no Youtube o vídeo de quando ela apareceu para cantar pela primeira vez no programa mencionado. A seqüência da cena era a seguinte: entra no palco uma pessoa feia, com os cabelos estilo espantalho-mágico-de-Oz, e os jurados começam a entrevistá-la. Susan faz gracinhas no palco, e, entre as gracinhas, flashes da platéia aparecem com os rostos das pessoas fazendo cara de reprovação, de deboche daquela feiúra ambulante. Um jurado pergunta a idade dela, que se segue da resposta (“forty-seven”). Outro flash: uma garota ri da resposta. No entando, quando Susan resolve cantar, todos fazem cara de surpresa e de admiração.
Para mim era evidente: ou a platéia estava sendo influenciada, ou a rede de televisão sabia do potencial da cantora e fez a mídia toda em cima da aparência da intérprete.
Só foi ficar evidente, porém, para mim que realmente se travata de jogada de marketing para cima de Susan, quando fui informado de que ela já teria fechado parcerias com a Sony Music e com o magnífico brega Andrew Lloyd Webber (aquele musiquinho do “Fantasma da Ópera” e do “Amigos para Sempre”). Dizem, também, que ela enviou, “confidencialmente”, para amigos, uma versão de Killing Me Softly, a qual parou no Youtube e já tem mais de 50 milhões de acessos.
A receita para o sucesso estava formada: músicas bregas e de apelo popular, cantadas por uma pessoa feia (para chamar a atenção), mas que tem uma voz forte e retumbante. Só faltava o local de divulgação. Aí entrou o “Britain’s Got a Talent”.
O problema de tudo (!) é que a filha-da-mãe canta bem. O potencial vocal dela é imensurável. Susan Boyle não erra, não desafina, canta com sentimento, por mais que suas músicas sejam ruins. Susan Boyle, a exemplo de Edith Piaf, sabe usar suas mãos: expõe com elas a sua paixão pela música e por sua voz. Susan Boyle é o exemplo de que todos precisávamos para frear essa rapidez com a qual julgamos as pessoas.
Entretanto, infelizmente a mídia não está ajudando. Está criando mais uma artista de fama repentina e curta. A crítica especializada não vai aceitar uma cantora que canta musicais da Broadway: ela quer música de verdade em uma musicista de verdade. A musicista já temos, mas faltam as músicas. Acredito que tentaram consertar um pouco esse problema com a música dos Rolling Stones, mas, na sua essência, suas canções são bregas. O problema é que os grandões da música já não costumam elogiar musicistas com músicas ruins.
Lucas Primo
Publicado por Primo 
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